terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Li mal os poemas na Estrela.




Max Martins, Cadernos
Foto: Walkíria Loureiro

E, lido por todos, dizer: quem pode me ler? Não escrevi nada.




O resultado é que, quando a consciência honesta julga o escritor imobilizando-o numa dessas formas, quando pretende, por exemplo, condenar a obra porque é um fracasso, a outra honestidade do escritor protesta em nome dos outros momentos, em nome da pureza da arte, que vê no fracasso o seu triunfo - assim, cada vez que o escritor é posto em questão sob um dos seus aspectos, ele só pode se reconhecer sempre outro e, interpelado como o autor de uma bela obra, renegar essa obra e, admirado como inspiração e gênio, só ver em si exercício e trabalho e, lido por todos, dizer: quem pode me ler? Não escrevi nada. Esse deslize faz do escritor um eterno ausente e um irresponsável sem consciência, mas esse deslize faz também a extensão da sua presença, de seus riscos e da sua responsabilidade.


Maurice Blanchot. A Literatura e o Direito à Morte, in A Parte do Fogo. Rocco: Rio de Janeiro, 1997.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O que está escrito não é nem bem nem mal escrito:


Suponhamos a obra escrita: com ela nasce o escritor. Antes, não havia ninguém para escrevê-la; a partir do livro, existe um autor que se confunde com seu livro. Quando Kafka escreve acaso a frase: "Ele olhava pela janela", está, diz ele, em tal estado de inspiração, que essa frase já está perfeita. É que ele é o seu autor... ou, mais exatamente, graças a ela ele é autor: é dela que tira sua existência, ele a fez e ela o faz, ela é ele mesmo, e ele é inteiramente o que ela é. Daí sua alegria, alegria sem mistura, sem defeito. Não importa o que ele escreva, "a frase já está perfeita". Essa é a certeza profunda e estranha da qual a arte faz a sua meta. 



O que está escrito não é nem bem nem mal escrito, nem importante nem vão, nem memorável nem digno de esquecimento: é o movimento perfeito pelo qual o que dentro não era nada veio para a realidade monumental de fora como algo necessariamente verdadeiro, como uma tradução necessariamente fiel, já que aquele que ela traduz só existe por ela e nela. Podemos dizer que essa certeza é como o paraíso interior do escritor e que a escrita automática foi apenas um meio para tornar real essa idade de ouro, o que Hegel chama a pura ventura: passar da noite da possibilidade ao dia da presença, ou, ainda, a certeza de que o que surge na luz é a mesma coisa que dormia na noite. Mas qual é o resultado disso? Para o escritor, que inteiramente se encolhe e se fecha na frase: "Ele olhava pela janela", aparentemente nenhuma justificativa pode ser exigida sobre essa frase, já que para ele nada existe além dela. Mas ela, pelo menos, existe, e, se existe realmente, a ponto de fazer daquele que a escreveu um escritor, é porque não é apenas a sua frase, mas a frase de outros homens capazes de lê-la, uma frase universal.

Maurice Blanchot. A Literatura e o Direito à Morte, in A Parte do Fogo. Rocco: Rio de Janeiro, 1997.

domingo, 30 de outubro de 2011



A mais curiosa das criaturas


Como o escorpião, meu irmão,
Tu és como o escorpião
Numa noite de medo.
Como o pardal, meu irmão
Tu és como o pardal
No seu miúdo desassossego.
És como o mexilhão, meu irmão
Tu és como o mexilhão
Fechado e tranquilo.
Tu és terrível meu irmão
Como a boca
De um extinto vulcão.
E tu, ai de mim, não és um,
Não és cinco,
Tu és milhões.
Tu és como a ovelha, meu irmão.
Quando o carrasco vestido da tua pele
Quando ele levanta a sua vara
Apressas-te a alcançar o rebanho
E vais para o matadouro a correr,
Quase orgulhoso.
Em suma, és a mais curiosa das criaturas
Mais curiosa que o peixe
Que vive no mar ignorando o mar.
E se há tanta miséria na terra
É graças a ti meu irmão.
Se somos famintos, esgotados,
Se somos esfolados até ao sangue,
Espremidos como uvas para o nosso vinho
Iria até ao ponto de dizer que é culpa tua,
Mas não,
Isso nada tem a ver contigo meu irmão.



Nâzim Hikmet 

   


      * Tradução de Adalberto Alves

         via Marcia Huber

Reflexões sobre poesia e ética



Quantas vezes, durante o horário de trabalho, não me vem uma bela idéia, uma imagem inusitada, uns versos imprevistos já prontos, que me vejo compelido a negligenciar porque o serviço não pode ser adiado. De volta a casa, depois de repousar um pouco, tento lembrá-los, mas em vão. E é justo que assim seja. Como se a arte me dissesse: "Eu não sou uma criada para que me dispenses quando me apresento e me apresente quando me chames. Sou a maior Senhora do mundo. Se me negaste - abjeto traidor - por causa de tua deplorável bela casa, tuas deploráveis belas roupas, tua deplorável bela posição social, contenta-te então com elas (mas como o poderias?); e nos raros momentos em que eu te apareça, cuida de estar pronto para me receberes, esperando-me à porta, onde deverias estar todo dia. 


Konstantinos Kaváfis, junho de 1905, em Reflexões sobre poesia e ética.

sábado, 29 de outubro de 2011

O que menos se preside à vida


.
.
GOSTO DOS AMIGOS


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.



Sebastião Alba
.
.


(via Vasco Cavalcante)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

até aqui a sede,


Limites 

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

Juan Gelman (1930), poeta argentino

(via Marcia Huber)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A tua cabeça ainda vai ser




ADORNO

A tua cabeça ainda vai ser um enfeite lá em casa.


A tua cabeça ainda vai ser o jarro da minha mesa;


e a encherei de lápis e canetas que escreverão flores:


cabelos rosa em tua cabeça decepada.





José Inácio Vieira de Melo, 50 poemas escolhidos pelo autor, edições galo branco, 2011. 


Poema dedicado a Jorge de Lima. Imagem: fotomontagem de Jorge de Lima.


via Ney Ferraz Paiva https://www.facebook.com/neyferrazpaiva

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



A Hakunin


Tu que me lês

... tu vês

(talvez)

- isto é um cavalo?



Max Martins

Imagem: Andrea Galvani
composição-presente de Marcia Huber

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Viver na intimidade de um ser estranho,


Viver na intimidade de um ser estranho, não
para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer,
mas para o manter estranho, distante, e mesmo ina-
parente - tão inaparente que o seu nome o possa
conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal es-
tar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre
aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa
coisa, permanece para sempre exposta e murada.



Ideia do Amor de Giorgio Agamben, no livro Ideia da Prosa

De repente não mais atinjo a cor do teu corpo.



De repente não mais atinjo a cor do teu corpo. De repente
o recinto se enche de tipos curiosos, do fato de estarmos pensando, da lastimável distância entre os nossos fantasmas.
De repente a lógica da tua mão me rasga: idealizo campos, pombos e uma parede branca que ao acordar confundi com céu. Confundi com céu.
De repente descubro que esta impossibilidade
é a matéria que trabalho, que comigo desenho no recuo das tuas pernas; que obedeço e desobedeço como que me rasgando.


Ana Cristina Cesar, pasta Rosa

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

e que sabe o que é, que sabe não ser


CANÇÃO

Se estou só, queres tu saber:
Pois bem, sim, estou só,
como o avião que voa só e horizontal,
fixado no feixe de rádio,
e atravessa as Montanhas Rochosas,
visando os corredores orlados de azul
de um qualquer aeroporto no oceano.


Se estou só, queres perguntar.
Bem, é claro, só
como uma mulher que atravessa de automóvel o país,
dia após dia, deixando atrás de si,
milha após milha,
cidadezinhas onde poderia ter parado
e vivido e morrido em solidão.


Se estou só
deve ser a solidão
de ser a primeira a despertar, de respirar
o primeiro sopro frio da manhã sobre a cidade,
de ser a única acordada
numa casa envolta em sono.

Se estou só,
é com o barco a remo bloqueado na margem pelo gelo
na derradeira luz vermelha do ano,
e que sabe o que é, que sabe não ser
gelo, nem lama, nem luz de Inverno,
mas madeira, dotada para arder.




Adrienne Rich
(Baltimore, 16 de maio de 1929) é uma feminista, poeta, professora e escritora estadunidense.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

(Como haveria eu de fazer por obrigação os gestos do coração?)



Eu mesmo e meu exercício de sempre:
curtir o frio e o calor,
apontar a espingarda num bom alvo,
fazer manobras de barco, tratar cavalos,
gerar soberbas crianças,
falar clara e prontamente,
sentir-me em casa entre gente comum,
e o que é nosso preservar
em terríveis posições
em terra firme e no mar.


Não por enfeitador (haverá sempre
enfeitadores em abundância,
e também eu lhes dou as boas-vindas),
mas pelo teor das coisas
e pelos homens e mulheres que se ligam.


Deixem que eu trace o meu próprio caminho:
que outros promulguem leis,
das leis não tomarei conhecimento;
que outros exaltem homens eminentes
e promovam a paz,
eu promovo conflito e agitação;
eu não exalto nenhum homem eminente,
e ainda reprovo bem na cara dele
o que foi dado por mais valioso.


Eu nada faço por obrigação:
o que outros fazem por obrigação
eu faço por um impulso de vida.
(Como haveria eu de fazer por obrigação
os gestos do coração?)


Que outros formulem questões,
eu não formulo nenhuma - eu formulo
questões irrespondíveis:
quem serão estes a quem vejo e toco?
Que há com eles?
Que há com esses semelhantes meus
que tão de perto me atraem
por suaves direções e faltas de direção?


Eu tenho de acompanhar
essas contínuas lições da terra, da água e do ar:
sinto que não tenho tempo a perder.


Walt Whitman - Folhas das Folhas da Relva
Tradução: Geir Campos

terça-feira, 10 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

De longe, do negrissonhado




À NOITE, quando o pêndulo do amor oscila
entre sempre e nunca,
tua palavra toca as luas do coração
e teu tempestuoso olho
azul alça o céu à terra.

De longe, do negrissonhado
bosque advém-nos o sopro,
e o perdido circula, grande como os esquemas do futuro.

O que agora sobe e desce
vale para o íntimo soterrado:
cego como o olhar que trocamos,
beija o tempo na boca.


Paul Celan

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O resto do mundo temos de procurá-lo,



À força de manipular um objeto, de fixarmo-nos nele, o objeto adquire para a consciência uma força de realidade incomparável. Existe permanentemente para nós; está sempre ali, ao nosso lado, é mais real do que qualquer outra coisa. O resto do mundo temos de procurá-lo, desviando penosamente do amado a nossa atenção.


Ortega y Gasset - Estudos Sobre o Amor

domingo, 1 de agosto de 2010

E mais fundo do que o dia pensava




Ó Homem! Atenção!

Que diz a funda meia noite?

"Estava a dormir, a dormir,

De um sonho fundo acordei:

O mundo é fundo,

E mais fundo do que o dia pensava.

Funda é a sua dor

A alegria — mais funda ainda que o pesar:

A dor diz: Passa e morre!

Toda a alegria, porém, quer eternidade —,

— quer funda, funda, eternidade!"



Nietzsche, Poemas.

Desapareceu a costa — Caiu a minha última amarra —



Se eu gosto do mar e de tudo o que é da estirpe do mar, e se mais gosto dele quando mais furiosamente me contradiz:
Se há em mim aquele prazer de busca que impele as velas para o desconhecido, se no meu prazer há o prazer do navegante:
Se jamais o meu júbilo gritou: Desapareceu a costa — Caiu a minha última amarra — O infinito envolveu-me,
Até lá ao longe brilha o espaço e o tempo, eia! Coragem! Velho coração! —


Nietzsche, Poemas.

terça-feira, 27 de julho de 2010

¡El sastre sabia enseñar a hablar a los osos!



EL OSO


(*Oso: Urso) (*Sastre: Alfaiate) (*Zar: Imperador)


Un día, el zar descubrió que uno de los botones de su chaqueta preferida se había caído.

El zar era caprichoso, autoritario y cruel (como todos los que se enmarañan durante demasiado tiempo en el poder). Así que furioso por la ausencia del botón, mando buscar al sastre y ordenó que a la mañana siguiente fuera decapitado por el hacha del verdugo.

Nadia contradecía al emperador de todas la Rusias, así que la guardia fue hasta la casa del sastre y, arrancándolo de entre los brazos de su familia, lo llevó a la mazmorra del palacio para esperar allí la muerte.

Al atardecer, cuando el carcelero le llevó al sastre la última cena, esté meneó la cabeza y musitó:

- Pobre zar.

El guardia no pudo evitar la carcajada.

- ¿Pobre zar? Pobre de ti. Tu cabeza quedará bastante lejos de tu cuerpo mañana mismo.

- Tu no lo entiendes – dijo el sastre – ¿Qué es lo más importante para nuestro zar?

- ¿Lo más importante? – contestó el guardia –. No lo se. Su pueblo.

- No seas estúpido. Digo algo realmente importante para él.

- ¿Su esposa?

- ¡Más importante!

- ¡Los diamantes! – creyó adivinar el carcelero.

- ¿Qué es lo más le importa al zar en el mundo?

- ¡Ya lo se! ¡Su oso!... ¿Y?

- Mañana, cuando el verdugo termine conmigo, el zar perderá su única oportunidad de conseguir que su oso hable.

- ¿Tú eres entrenador de osos?

- Un viejo secreto familiar – dijo el sastre – Pobre zar.

Deseoso de ganarse favores con el zar, el pobre guardia corrió a cantarle al soberano su descubrimiento.

¡El sastre sabia enseñar a hablar a los osos!

El zar estaba encantado. Mandó a buscar inmediatamente al sastre, y cuando lo tuvo frente a si le ordenó:

- ¡Enséñale a mi oso nuestro lenguaje!

El sastre bajó la cabeza.

- Me encantaría complacerle, ilustrísimo, pero enseñar a hablar a un oso es una tarea ardua y lleva tiempo, lamentablemente, tiempo es lo que menos tengo.

- ¿Cuánto tiempo llevará el aprendizaje? – preguntó el zar.

- Depende de la inteligencia del oso…

- ¡El oso es inteligente! – interrumpió el zar.

- De hecho es el oso más inteligente de todos los osos de Rusia. Bien. Si el oso es inteligente y siente deseos de aprender el aprendizaje duraría aproximamente ¡dos años!

El zar pensó durante un momento.

- Bien tu pena será suspendida durante dos años mientras entrenes al oso. ¡Mañana empezarás! – ordenó.

- Alteza – dijo el sastre. Si tú mandas al verdugo a ocuparse de mi cabeza, mañana estaré muerto. Mi familia se las ingeniará para sobrevivir. Pero si me conmutas la pena, ya no tendré tiempo para dedicarme a tu oso. Deberé trabajar de sastre para mantener a mi familia.

- Eso no es un problema – dijo el zar. A partir de hoy, y durante dos años, tú y tu familia estaréis bajo la protección real. Seréis vestidos, alimentados y educados con el dinero del zar. Nada que necesitéis o deseéis os será negado. Pero, eso si: si dentro de dos años el oso no habla ... te arrepentirás de haber pensado esta propuesta. Rogarás que el verdugo te hubiera matado. Entiendes, ¿verdad?

- Si, alteza.

- Bien, ¡guardias! – grito el zar . Que lleven al sastre a su casa en el carruaje de la corte. Dadle dos bolsas de oro, comida y regalos para los niños. ¡Ya! ¡Fuera!

El sastre, en reverencia y caminando hacia atrás, empezó a retirarse mientras musitaba agradecimientos.

- No lo olvides – le dijo el azar apuntándolo con el dedo directamente a la frente –: si en dos años el oso no habla...

Cuando todos en casa lloraban por la pérdida del padre de familia, el sastre apareció en la casa en el carruaje del zar, sonriente, eufórico y con regalos para todos. La esposa del sastre no cabía en sí de asombro. Su marido, al que pocas horas antes se le había llevado al cadalso, volvía ahora, acaudalado y exultante.

Cuando estuvieron solos, el hombre le contó los hechos.

- ¡Estás loco! – gritó la mujer ¡Enseñar a hablar al oso del zar! Tú, que ni siquiera has visto a un oso de cerca. Estás loco. Enseñar a hablar a un oso. Loco, estás loco.

- Calma, mujer, calma. Mira, me iban a cortar la cabeza mañana al amanecer... y ahora tengo dos años. En dos años pueden pasar tantas cosas. En dos años – siguió el sastre – se puede morir el zar. Me puedo morir yo... Y lo más importante: ¡A lo mejor el oso habla!



Fuente: Cuentos para pensar de Jorge Bucay

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

malucos, lunáticos, mágicos, criminosos, poetas!


Mas que admirável espetáculo, o do homem que vive, até à hora da sua morte!


Eu vos abençoo, malucos, lunáticos, mágicos, criminosos, poetas! e os que saem para a rua, sem chapéu, por divino esquecimento! e os que vão falar a só, pelos caminhos... e os que olham a lua, latindo intimamente... e os que não se conformam, os que não seguem a lei nem o costume -, todas as criaturas onde o anjo da infância sobrevive.



Texto: Teixeira de Pascoaes. Verbo Escuro, pg 51. Assírio & Alvim, 1999.
Imagem: Marie Loiuse-Nery para O Sorriso ao pé da Escada - Henry Miller. Salamandra, 1979

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

De súbito, chegam todas as sombras.





SERENATA


Que transparências no meio
dos teus cabelos doía
quando as brisas os alavam
as brisas que então corriam
quando as noites se apressavam

ainda há na brisa um descampado ondeando
que o vento não tardou a arborizar
mas por chegares já opto por um bando
de modos de ave para te deixar.







QUANDO NASCEMOS ENTRAMOS


Quando nascemos entramos
no nome pela voz dos pais:
- Dinis Albano...
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto
a cabeça, dissuadido.
Na voz duma mulher
os nomes são
interiores a nós.
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergonhássemos.)
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
- tu?!... - correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos cultos,
nem sabemos da sua
cessação.







CONTO


Um corpo de guitarra abandonada
a unha balouçando ainda a tiracolo
e aplausos já a erguer
o pó aos pés

do menino solto no sótão
deslizou pelos corredores da pauta
para a saída com musgo
dum átrio sem sol

E os mais velhos quedam-se olhando
a última pluma que esbarra à toa
nos grandes móveis da casa.







MOONLIGHT


Rola pelas encostas afiladas
e, na savana,
até ao fundo
do desaparecimento das clareiras.

De súbito, chegam todas as sombras.







1941-1968


Há muito já que o último amigo
se foi pela nomeada
abertura da terra
Há muito que a brisa
se deslaça e esquiva
no rebordo do traço
de duração entre as datas

Um imperativo silêncio
desloca estes versos
Tão de súbito resumida
como evocar a amizade?
Seu nome de ilimitadas
sílabas desérticas?








Alba faz as palavras não terem outra pátria que não seja o país sem fronteiras do poema. Utilizando a riqueza das palavras como um utensílio precioso, mas não um artigo de luxo, Sebastião Alba faz poesia luxuriante de ternura. JOSÉ CRAVEIRINHA, 1973.

Roland Barthes - O Prazer do Texto

Parece que os eruditos árabes, falando do texto, empregam esta expressão admirável: o corpo certo.